Sabe, há um par de anos ouvi uma frase que anda ecoando muito na minha cabeça nos últimos tempos: “Crise é bom”. A boca que disse isso era de uma cinquentona divertida, cabelos vermelho-esvoaçantes. Era num momento assim, digamos, diferente do atual. Mas aí o papo fluiu, ela desceu do carro, havia dito outras bobagens tão divertidas quanto tresloucadas. O fato é que esse pensamento ficou guardado e vive martelando por aqui.
Eis que hoje eu conversei com - e entenda-se aqui que consolei, aconselhei, ignorei, escarafunchei ou xinguei - umas seis ou sete pessoas em crise. Desde a mocinha que não arranja alguém ao trintão ao lado em crise, passando pelos complexados e pelos que pisaram na bola e geraram mini-crise. Aí eu penso se crise é bom mesmo. Depende. O texto vai ficar meio chato-reflexivo, mas ok.
Se a mocinha fosse menos complexada, tava tudo resolvido. Mas aí que tá. Não é fácil, ela às vezes nem percebe. Se o trintão gritasse menos e ouvisse mais, seria mais divertido. Mas aí ninguém iria ouví-lo, acho. A que pisou na bola, puxa, poderia ter maneirado na tequila ontem. Mas aí não iam ter puxado sua orelha pelos porres recorrentes.
O que importa é que essas “crises”, que se traduzem em crises de choro, ódio (in)contido, vergonha, dores de cabeça, pedidos de desculpa e tudo-o-mais estão preparando terreno para uma mudança. Pequena ou grande, mas uma mudança. Então o jeito é amansar o grito, mostrar as coisas legais aos que não querem ver o que é bom, dar uma apartada aqui e ali, ficar calmo, mas tbm gritar. Tudo junto, ao mesmo tempo, de uma só vez. Porque aí algo está mudando, e esse é o ponto.
Com a mudança, a complexada vai perder os complexos - e, se Deus quiser, as estribeiras. O trintão vai resolver se resolver e resolver para os outros, tbm. A beberrona vai secar a fonte. O calado vai começar a falar, o resignado vai alegrar os olhos, os frouxos vão arrochar. Aí tudo vai ter mudado, outras crises vão surgir e aí será hora de outro post.
Pego, então, minhas crises, e as retomo numa outra oportunidade.
Mas sempre lembrando que crise é bom.
E que uma frase d’O Pequeno Príncipe torna tudo mais poético, patético e pseudoprofundo. Aí eu lembro que “sou responsável pelo que cativo” e que “não posso ordenar algo que meus súditos não possam realizar”.
Fui.